Sonhos de Bébé

Sonhos e desejos de uma mãe



Sábado, Julho 08, 2006

Meu relato de parto... (Rio de janeiro)


Meu relato de parto...

Isso talvez não devesse estar aqui porque afinal relata tudo, desde boa parte da gestação até o parto em si, e não só fala de episiotomia...

Mas o meu objetivo é me expor, falar do que passei, e assim ajudar algumas mulheres...

Afinal, a episio não acontece sozinha... Ela faz parte do todo que é o modelo obstétrico tecnocrático adotado em nosso país (e, infelizmente, na maior parte do mundo!).

Eu fui bem atendida, tive um médico que deve ser um dos melhores desse país, que eu adoro e não tenho nada do que reclamar dele.

O que não foi bom? O modelo de atendimento. Estou certa que ele fez o melhor dele por mim. O melhor que ele acredita ser melhor... Eu não tenho lembrança ruim do parto... Pelo contrário... As críticas que faço, as formulei mais de um ano depois do parto, depois de muito ler e de achar que o modelo de parir no nosso país poderia e pode ser diferente. Na época que minha filha nasceu eu não sabia quase nada para questionar, para dizer que sim ou que não, para fazer diferente, para chamar a responsabilidade do MEU parto para MIM, e entreguei sim tudo na mão da equipe médica... Tive muita sorte de ter uma boa equipe me ajudando e que não me levou para uma cesariana desnecessária.

Leiam, se quiserem...

Relato do Parto da Ana Carolina (por Bartira, nascida em 22/06/1977, carioca, moradora do Rio de Janeiro)
28/02/2002 - Parto normal, hospitalar, com poucas intervenções, humanizado "em termos"...

O parto da minha filha foi muito bom considerando-se que na época eu tinha pouca informação e achava que o único lugar para parir era o hospital... Eu não sabia direito a necessidade real de se fazer episiotomia e nem a necessidade de outras intervenções, embora soubesse que queria fugir de uma cesárea desnecessária a todo custo. Acabei então passando muita coisa desnecessária no parto sem nem saber o porquê... Alguém resolvia pra mim e por mim porque eu não tinha conhecimento para isso...

Tive ainda a sorte de ter um médico obstetra muito bom mesmo e que recomendo pras minhas amigas, adepto do parto normal, mas isso infelizmente não é a realidade neste país, muito menos na nossa cidade! Os médicos que temos por aí em sua maioria não se atualizam ou, quando o fazem, escolhem as piores fontes! Muitos não sabem mesmo como auxiliar (veja bem: auxiliar e não fazer) partos normais dignos. Não compreendem a mulher e sua fisiologia porque não acreditam nela! Sei também que muitas vezes a mulher prefere se ausentar das responsabilidade de seu parto, deixando tudo nas mãos do médico, mas isso aí já é outro papo (não era o meu caso, por mais desinformada que eu estivesse)...

Eu cheguei no consultório do meu médico com 8 meses de gestação fugindo do segundo cesarista pelo qual passei na gravidez. Ele foi muito melhor do que eu podia esperar e as consultas que tive com ele no pré-natal foram muito boas. A DPP era 02/03/2002.

Por que fugi do segundo cesarista? Porque o segundo médico que estava comigo viu na ultra que a minha filha "ainda estava sentada no oitavo mes" e começou a falar de uma possível/provável cesárea! Além disso, nessa mesma consulta, vi o cara colocar pressão numa gestante que estava na 40ª semana pra ela fazer uma cesárea sem entrar em TP naquele mesmo dia porque ele ia viajar e ela ia "ficar nas mãos de qq um" (usando palavras do próprio médico).

Já tinha fugido de uma outra médica antes desse. Ela também me parecia cesarista. As consultas dela não passavam de 10 minutos e a espera na ante-sala era de 2 horas (pasmem!). Ela não me explicava quase nada, só media minha barriga, me pesava e fazia exame de toque toda consulta. Quando eu queria perguntar algo, ela dizia que era "cedo para esse assunto".
No dia em que entrei em TP sabia desde de manhã (27/02/2002) que seria aquele dia. Fiquei em casa andando, tomando banho, relaxando. Liguei pro médico, mas ele não acreditou que já era a hora, afinal, geralmente primigesta demora a parir!

Seis horas da tarde meu marido chegou da rua (ele fazia mestrado e tinha que finalizar um relatório e entregá-lo naquele dia - desde de manhã não falei nada das coisas que estava sentindo para ele afim de não perturbá-lo na finalização e entrega do tal relatório), voltei a ligar pro médico. As contrações estavam fortes e não contei intervalo (nunca prestei atenção nesse lance de intervalos das contrações e nenhum médico havia me dito para prestar atenção nisso)... Ele me disse que não devia ser a hora, mas seu eu quisesse podia ir pra Clínica. Chegando na Clínica, estava com 5cm de dilatação. Fui pra internação às 22hs... Depois pro quarto, tomei banho e tentei relaxar um pouco. As contrações eram fortes! Eu estava meio perdida e meu marido, coitado, mais ainda.

23:30 chegou o anestesista. O obstetra já estava vindo. Eu fiquei com medo das dores das contrações, ali naquele quarto de hospital com meu marido, tão inexperiente quanto eu, e aceitei a analgesia quando já estava com 7cm de dilatação. Acho se tivesse tido uma doula, ou estivesse em casa ou numa casa de parto, com alternativas naturais para o alívio da dor, teria conseguido ficar sem a analgesia! Mas ali, deitada, me sentindo meio só... Foi difícil aguentar! Não havia conversado sobre anestesia com meu obstetra, nunca, e quando o anestesista chegou eu liguei pro obstetra, ele disse que não tinha problema eu tomar a anestesia... Aceitei, muito sem informação. Fui levada para a sala de pré-parto e o médico aplicou uma micro-dose da raqui e introduziu um cateter para uso da peridural em gotas conforme fosse necessário. Eu tinha mesmo medo da dor!

Fiquei na sala de pré-parto deitada, com soro contínuo (exigência do anestesista porque era preciso ter uma "veia de acesso em caso de emergência") sem ocitocina, pelo menos! Os médicos iam e vinham analisando a evolução do trabalho de parto. Até que eu ia bem! Estava com sede e só podia beber goles de água...

4 horas manhã do dia 28/02/2002... O médico disse "Vamos pra sala de parto?"... Fiquei semi-deitada no centro cirúrgico, frio, claro demais, com as pernas naqueles aparadores, e os médicos me orientando quando fazer força porque eu não sabia quando deveria fazê-la (não sentia as contrações de fato por causa da analgesia e nem conseguia prestar atenção na rigidez de minha barriga pra saber quando estava numa contração, não controlava meu parto!)...

Ele deu uns toques com o dedo na minha vagina e períneo e eu disse que sentia (não sentia 100%, mas sabia que ele estava mexendo ali). Ele me deu anestesia local e fez a episio (disso eu não gostei porque não fui avisada, embora soubesse o que estava prestes a acontecer e embora confiasse nos procedimentos do meu médico). Mais alguns comandos de voz ("faz força, faz força" e eu obedecia)... Fiquei meio desesperada um momento e tive o consolo da neonatologista que estava lá... Era a única mulher me apoiando naquela hora. Meu marido de mãos dadas comigo, mas meio atônito também. O médico me dizia para ficar calma e não gritar, fazer força. E de repente passei pela manobra de Kristeller (tb não gostei disso, porque não fui consultada)... Foi uma grande dor essa manobra (soltei um grito das entranhas), eu senti a queimação do expulsivo - essa queimação é chamada, nos círculos femininos e místicos, de "círculo de fogo" - (apesar da anestesia, que depois vim a saber que era em bem baixa dose mesmo) e o obstetra me chamou para me erguer e ver minha filha nascendo (com a manobra, saiu a cabecinha de minha filha) e fiz mais uma força sozinha e minha filha nasceu inteira... Ele perguntou ao meu marido se ele queria cortar o cordão e ele não quiz (de nervoso!). A minha filhota linda foi colocada em cima de minha barriga e a neonatologista fez os procedimentos necessários ali mesmo, em cima de mim (aspiração, limpeza, e mais alguma coisa). Não me esqueço nunca do olhar dela para mim; não chorou, só me olhava com os olhos mais profundos e brilhantes que vi na vida. Reparei em cada pedacinho dela e no meio do turbilhão vi meu marido com lágrimas nos olhos pela primeira vez na vida (ele não chora!). O médico deu os pontos da episio, minha filha foi pro berçário ficar 6 horas na incubadora sem necessidade (quer dizer, eu creio que foi sem necessidade porque um bebê que nasce com Apgar 10 e o segundo Apgar também é 10 não deve ser mantido em incubadora por tanto tempo; acho que foi por recomendação de rotina) e eu fui pro quarto, esperar o efeito da anestesia passar e esperar que ela viesse ficar comigo, esperei também pela hora em que podia comer alguma coisa, pois estava com muita fome, e esperar pelo banho, porque estava doida para me lavar!

Esse parto foi como foi... Deitada, soro, analgesia, meio que tímida, comandada. Cortada pela episio e amassada pela Kristeller... Eu não tinha o poder dado pela informação que tenho hoje.

No próximo parto espero não deixar: analgesia, empurrão na barriga e episio.
E, se possível, gostaria de parir em na minha casa!



2 Comments:

Enviar um comentário

<< Home